Projeto de leitura: 5 dicas para pais e professores - Busca Prof

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Todos nós já sabemos que a leitura (e um projeto de leitura) é fonte de diversos benefícios, não apenas aqueles relacionados à esfera cognitiva, como o desenvolvimento da linguagem, do raciocínio e da criatividade, mas também aqueles relacionados ao mundo emocional e afetivo. Ela colabora para o conhecimento e o desvendamento de emoções, e é ponte de acesso à alteridade e à empatia, ou seja, à competência de se posicionar no lugar do outro de maneira a compreender o seu ponto de vista. 

Neste artigo, quero dar cinco dicas para ajudar escolas e pais a criar um espaço de leitura dentro e fora da sala de aula. Porém, antes de irmos direto ao tópico, é importante levarmos em consideração três pontos sobre um projeto de leitura:

3 pontos sobre um projeto de leitura:

Um projeto de leitura pressupõe um vínculo e um engajamento

Como o próprio nome já diz, um projeto possui uma longa duração e passa por algumas fases de desenvolvimento. Então, para tornarmos as crianças e jovens engajados na leitura, são necessários comprometimento e o envolvimento entre professores e alunos, e entre pais e filhos.

Vale lembrar que, devido à atual pandemia que estamos enfrentando, o espaço para esse projeto integraria totalmente o âmbito do lar. Contudo, ainda é possível usar a internet para trocas de leituras. O espaço para a leitura compartilhada e a troca de experiências pode ser realizada entre os pares em uma videoconferência, por exemplo. Nada impede que o projeto seja realizado em casa com os responsáveis e virtualmente entre os educadores e alunos.

Estímulo à leitura

Para que crianças e jovens sejam estimulados à leitura de modo a valorizá-la e “pegarem o gosto” pelas histórias, é preciso que professores e pais tenham o hábito da leitura e que sejam eles próprios leitores. Torna-se um tanto desafiador criar um projeto de leitura se o(a) próprio(a) professor(a) ou os responsáveis não possuem o hábito de ler. 

“Torna-se um tanto desafiador criar um projeto de leitura se o(a) próprio(a) professor(a) ou os responsáveis não possuem o hábito de ler. “

Uma consideração importante!

Lembre-se: o projeto de leitura visa desenvolver um espaço de compartilhamento, ou seja, de trocas de leituras (obras e títulos) e discussões sobre as experiências estéticas ocasionadas pelo ato da leitura de uma obra.

Tendo esses três pontos em mente, podemos começar com os passos e as dicas de como criar um projeto de leitura em sala de aula e em casa.

E vamos às dicas!

Dica 1: Quem são esses leitores?

É importante averiguar quem são os tipos de leitores e qual é o seu imaginário, isto é, quais os fatores e as características que integram o mundo social e as realidades em que esses sujeitos vivem. Por exemplo, é importante levar em consideração, antes de escolher as obras literárias, quais temas compõem o dia a dia dessa criança ou jovem. O que os atrai mais? Do que eles gostam? Quais são os seus interesses? Um projeto de leitura é mais fácil de ser desenvolvido à medida que os sujeitos envolvidos possuem familiaridade com os temas e as obras. Assim, a chave que levará à abertura de caminhos entre as obras e seus leitores é o diálogo. Conversar e compreender os gostos e repertórios desses leitores é um grande passo para um projeto bem sucedido. 

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“Conversar e compreender os gostos e repertórios desses leitores é um grande passo para um projeto bem sucedido. “

Dica 2: Quais as obras precisam integrar esse espaço de leitura?

Para criar um espaço de leitura é necessária a seleção de algumas obras e coletâneas literárias, tanto em prosa quanto em verso. Bons livros, nesse sentido, são essenciais. A literatura infantil e juvenil está repleta de bons títulos; porém, antes de ir em busca apenas pelo adjetivo que acompanha essa literatura, “infantil” ou “juvenil”, é importante saber qual o principal aspecto que deve compor a seleção das obras. É interessante ir além da etiqueta que classifica o livro como infantil ou juvenil, isto é, vale a pena se atentar à composição e aos significados que essas histórias carregam.

Quais são os bons livros?

Bons livros são aqueles que nos levam a acompanhar a história pela sua composição artística e que nos fazem refletir sobre os aspectos essenciais do humano. É importante lembrar que livros não têm idade. Assim, tente buscar livros que não se sobreponham à arte literária, ou seja, livros que desafiem os leitores com suas palavras e que os fazem pensar por si mesmos. Em um outro artigo deste blog, já escrevi sobre os aspectos que configuram um livro como “infantil”. Se você ainda não teve a chance de ler, clique aqui.

Dica 3: Espaço para a leitura compartilhada.

A leitura compartilhada é uma atividade envolvente que permite a todos os leitores se engajarem na história. No caso dos professores, permite que sua turma tenha um momento de leitura em que a história seja sincronizada e dividida entre seus alunos. Nessa prática, o educador torna-se um condutor e também um participante da leitura.

Vale ressaltar que os livros e suas histórias não devem ser instrumentos didáticos pelos quais o professor conduz o aluno a observar somente estruturas linguísticas. O importante é a participação e o engajamento de todos na leitura. É nessa troca e nesse momento que a alteridade e a empatia podem surgir. O professor pode chamar a atenção dos alunos para alguma passagem na história, mas não a utilizar como veículo de ensino.

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Lembre-se…

O mais importante é o contato com a arte literária e a experiência estética que ela é capaz de proporcionar, isto é, o efeito da obra sobre o seu leitor. O mesmo acontece com a leitura compartilhada dentro de casa com os pais ou responsáveis. A leitura compartilhada, em voz alta, por seus interlocutores ajuda não apenas o conhecimento da pronúncia das palavras grafadas para os pequenos, como também estimula a interação e a construção de um vínculo familiar, levando a momentos de proximidade e de contato afetivo. A leitura deve se tornar uma experiência agradável, distante da obrigatoriedade ou da “pressão” no sentido de ter de “servir” para alguma coisa. Tenha em mente que ler deve ser por prazer e não por obrigação. 

Dica 4: Espaço para a leitura subjetiva e um diário de leituras.

A leitura subjetiva é importante para que as crianças e jovens tenham o seu próprio espaço-leitor. Segundo a antropóloga francesa e pesquisadora Michèle Petit, a leitura-subjetiva leva à “construção de si mesmo”. É nessa leitura que crianças e jovens podem ter contato e acesso às suas emoções e à criação de seu próprio mundo de sentidos. As obras literárias possuem um efeito de “mão-dupla”, isto é, o texto “fala” com o leitor e o leitor “se comunica” com ele. Ou seja, o texto suscita sentidos para o leitor e ele constrói seus significados a partir da leitura.



Tal experiência, caracterizada como estética pelo teórico literário Hans Robert Jauss, se funde no ato da leitura, permitindo que cada leitura seja diferente para cada leitor. Assim, é importante que haja um momento e um espaço para que pequenos e jovens possam ampliar seus horizontes de expectativas através da leitura, isto é, ter a oportunidade de aumentar seus repertórios e suas vivências pessoais.

Construindo a si mesmo

É a partir dessa “construção de si mesmo” que eles se tornam leitores literários – sujeitos que são capazes de elaborar um lugar afetivo de contato com os textos e de expandir suas leituras, diferenciando-as entre leituras rápidas (textos informativos) e leituras afetivas (leituras postuladas por textos em prosa ou em versos, ficção ou poemas).

ovens possam ampliar seus horizontes de expectativas através da leitura, isto é, ter a oportunidade de aumentar seus repertórios e suas vivências pessoais.

É importante, nesse sentido, que professores e responsáveis estimulem o hábito de relatar essas experiências em um diário. Para isso, o diário de leituras se torna um instrumento em que crianças e jovens podem relatar sobre os efeitos de sentidos das obras sobre eles, ou seja, escrever sobre o que eles mais gostaram na narrativa ou o que os fizeram se identificar mais com uma história. O diário é um dos principais meios para a formação de um leitor crítico e sensível. Para crianças pequenas, ainda em fase de alfabetização, a ilustração pode ser uma boa opção de relato.

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Dica 5: Espaço para a autonomia e liberdade leitora.

É a partir dessa construção e desse engajamento com a leitura que crianças e jovens conseguem ter autonomia para as suas próprias escolhas literárias. Eles vão criando repertórios e desenvolvendo gostos por determinados temas, narrativas e enredos. É muito gratificante quando um projeto de leitura chega no ponto em que as crianças e jovens têm liberdade para selecionar obras.

“É a partir dessa “construção de si mesmo” que eles se tornam leitores literários […]”

O professor irá perceber que a biblioteca da escola será o lugar mais frequentado por eles. Do mesmo modo, em casa, as crianças e jovens saberão comunicar aos seus responsáveis as suas preferências de títulos para as próximas leituras. É importante, quando essa autonomia surgir, que eles não sejam impedidos em suas escolhas, mas sim incentivados a ler e a compartilhar a experiência que a leitura lhes proporcionou. Por isso, esse espaço, em um projeto de leitura, incentiva a formação de sujeitos leitores; suas investigações e curiosidades sobre os textos literários vão abrindo caminhos para conhecerem mais sobre outras histórias.


Gostou das dicas? Se tiver alguma dúvida ou questionamento, deixe nos comentários!


Referências e títulos para se trabalhar com a leitura literária:

ANDRUETTO, María Teresa. Por uma literatura sem adjetivos. Tradução: Carmem Cacciacarro. São Paulo: Editora Pulo do Gato, 2012.

JAUSS, Hans Robert. A estética da recepção: colocações gerais. In LIMA, Luiz Costa (org. e trad.). A literatura e o leitor. Textos de estética da recepção. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

PETIT, Michèle. Os jovens e a leitura: uma nova perspectiva. São Paulo: Editora 34, 2009.

ROUXEL, Annie; LANGLADE, Gérard; REZENDE, Neide. Leitura subjetiva e ensino de literatura. São Paulo: Alameda, 2013.


Jolie plano de leitura

Jolie Antunes da Cunha é professora formada em Letras, Português/Inglês, pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente pesquisa poesia na área de Literatura Infantil e Juvenil em documentos e materiais curriculares junto ao programa de pós-graduação da USP. Atuou durante anos com o ensino infantil e fundamental. Trabalhou em escolas com projetos literários e com o ensino de línguas. 

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