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Previsões literárias e o coronavirus

A afirmação que estamos sempre acostumados a ouvir é “a ficção imita a realidade”, e não o inverso. Acontece que, em tempos de pandemia, nunca antes a ficção de algumas obras se fez tão presente em nossa realidade, mas como? Previsões literárias existem?

Começaremos por uma história

Tudo começa com uma gripe letal na cidade de Atlanta nos Estados Unidos. Um vírus contagioso, fruto de um fracasso científico, e muito similar aos sintomas de uma gripe, é liberado por um grande laboratório americano. A partir disso, esse vírus começa a se espalhar em um tempo muito rápido e atinge não apenas aquela cidade norte-americana, mas todo o planeta. Pessoas passam a se isolar e os comércios cerram suas portas, causando um pandemônio e milhares de mortes.

Previsões literárias e romances
A história em cenário pós apocalíptico escrito por Stephen King foi lançado no Brasil em 1990.

Parece familiar? Tal enredo faz parte do romance A dança da morte do escritor norte-americano Stephen King, publicado em 1978. Esse cenário ficcional não está tão distante de nossa realidade atual. No entanto, a obra de Stephen King não tem por intenção a pandemia como o enredo mobilizador da obra. Ou seja, a doença é usada como pano de fundo para mostrar outras verdades intrínsecas ao humano, verdades essas que sempre estiveram presentes e somente foram possíveis de ser reveladas após o surto.

A partir do momento em que o caos se familiarizou foi possível enxergar a natureza humana além das aparências civilizadas. Nesse caso, a calamidade instaurada após a doença em A dança da morte permitiu que governos despreparados assumissem o controle, causando o fim de uma civilização por conta da ganância e da maldade.

A literatura nos aproxima da realidade ou de nós mesmos?

No que essas histórias e, especialmente, a literatura pode nos ajudar nesse momento de confinamento? A literatura não tem a pretensão de imitar a vida ou de se tornar um oráculo “previsões literárias de 2020”, mas ela pode fazer uso de certas características sociais de modo a metaforizá-las em contos ou ficções. Talvez ela não apenas mostre que eventos catastróficos sejam possíveis de acontecer, como também pode nos ajudar a compreender nossa reação diante deles. Muitos dos comportamentos humanos, por sua vez, podem ser perceptíveis quando acessamos essas obras ficcionais.

Previsões literárias e as emoções humanas.
Previsões literárias existem? Elas nos ajudam a entrar em contato com o futuro ou com nós mesmos?

A fabulação, de alguma forma, permite o acesso a nossas experiências e nos ajuda a dar forma a elas. Do mesmo modo, ela pode tornar acessível a reflexão sobre as atitudes humanas, como a ganância e o egoísmo na busca de sobrevivência, bem como nos permite observar gestos de empatia e de solidariedade, fatores importantes que nos ajudam a passar por fases atribuladas como esta.

Elencamos alguns romances que se assemelham com a realidade que estamos enfrentamos e que, talvez, te ajudem a uma reflexão:

Livro: A Peste

No livro, o escritor existencialista Albert Camus conta a história de uma pequena cidade da Argélia, a qual é atingida por uma terrível epidemia causada por milhares de ratos que começam a surgir do subterrâneo. Dessa forma, a doença faz com que monotonia da cidade e de seus habitantes seja rompida, dizimando toda a população.

Livro: Ensaio sobre a cegueira (1995)

O romance do escritor português José Saramago conta a história de uma epidemia que se espalhou por uma cidade, causando a doença da “cegueira branca”. Pessoas foram obrigadas ao isolamento e a cidade transformou-se em um caos, obrigando todos a viverem de maneira incomum. A cegueira, nesse caso, não é uma doença em si, mas a metáfora crítica de nos rendermos cegamente a sistemas que nos regem, como o econômico.

Filme: Blindness (direção Fernando Meirelles) baseado no livro Ensaio sobre a cegueira 
“O gigante invisível” de Bram Stoker (1847-1912) 

O conto juvenil de Bram Stoker, de 1881, narra a história de um gigante que aterroriza o País sob o Pôr do Sol. Esse gigante, invisível aos olhos do povo, mas visível a uma pequena garota, é nada menos que uma praga que se espalhou lentamente sobre o reino, causando doenças e mortes.


Referências

Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/curiosidades-51843967>


Jolie Antunes da Cunha é professora formada em Letras, Português/Inglês, pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente pesquisa poesia na área de Literatura Infantil e Juvenil em documentos e materiais curriculares junto ao programa de pós-graduação da USP. Atuou durante anos com o ensino infantil e fundamental. Trabalhou em escolas com projetos literários e com o ensino de línguas. 



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