POR QUE ESTUDAR HISTÓRIA?

Por que estudar história?

Aníbal, um general Cartaginês, atravessou os congelados e até então instransponíveis Alpes com cerca de 40 mil soldados e 40 elefantes. No período medieval as catedrais tinham os vitrais coloridos, pois se acreditava que assim os maus espíritos permaneceriam longe. Mahatma Gandhi, homem magro e de baixa estatura, mobilizou milhares de pessoas que por métodos não violentos libertaram a Índia do domínio Britânico.

Informações históricas como essas despertam interesse no público em geral sendo excelentes fontes de inspiração para roteiro de séries, filmes e games. Desse modo, a distração e o divertimento tem sido algumas das funções exercidas pelo conhecimento histórico na vida das pessoas. Mas afinal, que outra função do conhecimento histórico é suficiente para justificar o ato de relembrarmos de fatos que passaram e de pessoas que já morreram? Por que estudar História?

Para buscar orientações diante das carências da vida prática e do tempo presente.

Conhecer o passado para entender o presente e projetar o futuro; não repetir os erros de nossos ancestrais e compreender a atuação da humanidade no tempo. Essas têm sido algumas das respostas clássicas para o questionamento do porque estudar história. Apesar de significativas tais respostas parecem menos convincentes do que as justificativas que se costuma dar para o estudo de outras áreas do saber como matemática e biologia. Afinal, pessoas precisam de casas e para isso existem engenheiros que através de medidas e cálculos matemáticos projetam uma construção. Médicos salvam vidas, mas para isso precisam conhecer aspectos biológicos do corpo humano como o sistema nervoso, imunológico e as funções vitais.

Talvez seja mais fácil identificar os motivos do porque estudamos história ao pensarmos o que ocorreria se instantaneamente perdêssemos todas às informações referentes ao passado. É difícil especular sobre o impacto total que uma amnésia coletiva traria, mas esse esquecimento certamente afetaria desde tarefas simples, como fazer café, até ações mais complexas, como o desenvolvimento de tecnologias que permitem a fabricação de veículos não poluentes. O simples ato de fazer café só é possível devido uma série de legados históricos que começam na primitiva descoberta do fogo. O aperfeiçoamento tecnológico para invenção de veículos não poluentes só é possível a partir de variações e aperfeiçoamentos de descobertas do século XVIII como o motor a vapor.

Pensando dessa forma, levantamos razões óbvias que tornam o conhecimento histórico tão importante quanto os estudos matemáticos e biológicos. Esse raciocínio também permite acrescentar que o estudo de história está ligado à nossa necessidade de orientação diante das carências da vida prática e do tempo presente. Contudo, tal afirmação não esgota as respostas à pergunta referente ao porquê estudar história. Afinal, a preservação de muitos legados do passado, que podem ser úteis para as pequenas e grandes carências do presente, ocorre quase que automaticamente por meio de transmissões geracionais e não depende necessariamente de uma matéria escolar que estuda a história. Desse modo, é importante acrescentar que o estudo da história também está relacionado ao desenvolvimento de uma habilidade cognitiva denominada raciocínio histórico.

Para o desenvolvimento do raciocínio histórico.

Recorrendo mais uma vez a comparação entre a história e outras áreas podemos pontuar que se a matemática desenvolve um raciocínio essencial denominado raciocínio matemático (composto pela lógica, estatística, probabilidade, etc.) o estudo de história desenvolve um raciocínio também essencial denominado raciocínio histórico (composto pelo senso de empatia, multiperspectividade, evidência, etc.). O raciocínio matemático é acionado na verificação do troco recebido no mercado, bem como, na construção de um hotel luxuoso de 321 metros de altura na areia do deserto em Dubai. O raciocínio histórico revela as origens e motivos de fatos cotidianos como o porquê da jornada padrão de trabalho ser 8 horas e ajuda a compreender fatos mais profundos como o predomínio de determinada religião em uma sociedade.

Podemos perceber, portanto, que as respostas para a indagação “por que estudar história?” possui níveis de complexidade. Avançando um degrau a mais nesses níveis pontuamos que o estudo de história também está relacionado ao desenvolvimento da consciência histórica.

Para o desenvolvimento da consciência histórica

A consciência histórica é uma constante antropológica, ou seja, é um elemento comum a todo individuo em qualquer sociedade humana. Entretanto, possui variações em suas formas de manifestação. Segundo o teórico da história Jörn Rüsen há pelo menos quatro estágios de manifestação da consciência histórica:

  • Tradicional: Nessa forma está embutida a idéia que as coisas boas sobrevivem às mudanças; Quanto mais velho melhor; A permanência faz sentido.
  • Exemplar: Essa forma de manifestação diz respeito à compreensão que os exemplos do passado sempre servem para os problemas do presente. Ou seja, a história é a mestra da vida.
  • Critico: Parte do pressuposto da negação; nada que venha do passado é suficiente; é preciso partir sempre para inovação, para reformulação das instituições, culturas, filosofias e outros legados do passado.
  • Genético: Essa é uma forma de manifestação bastante complexa da consciência histórica. Não há leis prévias e nem pressupostos condicionantes. Dependendo da conjuntura tanto a permanência, como o exemplo ou a negação do passado podem atuar em prol da melhoria, do desenvolvimento e do progresso

Esses estágios da consciência histórica são, metaforicamente, como uma lente. Ou seja, condicionam a leitura da realidade. Quanto mais complexa e desenvolvida uma consciência histórica com mais inteligência e intencionalidade orientamos nossa vida.

Considerações finais

No presente texto pontuamos quatro das possíveis respostas à pergunta “Para que estudar história?”: 1) Para se divertir e entreter com as curiosidades do passado; 2) Para buscar orientação diante das carências da vida prática e do tempo presente; 3) Para desenvolver o raciocínio histórico e 4) Para o desenvolvimento da consciência histórica. Como explicitado, cada uma dessas respostas possui graus de profundidade diferente.

O aspecto lúdico do conhecimento histórico é o convite inicial para uma interessante viagem. Conforme avançamos nessa viagem somos tomados pelo encanto e entusiasmo. Assim como acontece com o mergulhador quando explora as profundas do oceano e o astronauta quando voa pela amplitude do espaço.


Sugestões:

Site: https://ensinarhistoriajoelza.com.br/


Fontes: RÜSEN, Jörn. Aprendizagem histórica: fundamentos e paradigmas. Curitiba: W.A. Editores, 2012. RÜSEN, Jörn. História Viva: teoria da história: formas e funções do conhecimento histórico. Brasília: Editora UnB, 2007.


Juliano Mainardes Waiga é formado em História pela UEPG, possui curso na área das Ciências Mentais e especialização em Psicologia Transpessoal pela FIES. É mestre pela UFPR e atualmente atua como professor de história junto a escola particular Montessoriana SION e na escola associativa Turmalina Waldorf, ambas localizadas na cidade de Curitiba. Também é co-criador e cordenador do curso de Pós Graduação em Pedagogia de Rudolf Steiner: uma educação para liberdade.

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