Literatura infantil, uma leitura para adultos? - Busca Prof

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Abril foi marcado por duas grandes datas que, talvez, para muitos passaram despercebidas. O mês teve as celebrações do “dia nacional do livro infantil” e do “dia mundial do livro” em 18/04 e 23/04, respectivamente. É engraçado pensar que já estamos no final de maio e deixamos passar tantas coisas despercebidas. Classificado como literatura infantil, olivro se chama Fico à espera, ilustrado pelo francês Serge Bloch e escrito pelo autor suíço Davide Cali. No Brasil, teve sua tradução assinada por Marcos Siscar epor isso, gostaria de compartilhar uma reflexão que tive após a sua leitura.

https://www.youtube.com/watch?v=SFndmo-Qcfk

Fico à espera conta a trajetória de um menino desde sua infância até sua velhice. Logo de início, a folha de rosto, de cor vermelha, nos dá um alerta: não será uma leitura como aquelas que se costumam fazer para as crianças. Um fio de novelo vermelho aparece na página e induz o leitor a acompanhá-lo. Acompanhamos esse menino em seus momentos doces da infância e de juventude, tais como o cheiro de um bolo quentinho saindo do forno e o encontro de um grande amor, até seus momentos difíceis e tristes, como uma guerra e a perda de um ente querido.

Fico À espera é um dos livros mais lidos da literatura infantil contemporânea.

O fio vermelho vai percorrendo os momentos vividos pelo menino, que, agora adulto, lida com as emoções dessa fase como relacionamentos, chegadas e partidas, infelicidades da vida e recomeços. A história é linda e cheia de sentimentos que poderiam acontecer com qualquer um de nós, crianças ou velhos. Ao terminar a leitura, algo me fez refletir: o que de “infantil” deve ter um livro infantil? Ou melhor reformulando: A Literatura Infantil é também literatura para adultos?

O que é o infantil na literatura?

Fico à espera está classificado como “literatura infantil”, mas nos comove de tal maneira que nos deixa dias em um transe nostálgico. Se observarmos pela ótica que construímos do termo infantil, talvez não concederíamos essa leitura para crianças. Mas devemos lembrar que infantil é uma concepção social. Ela se remete ao que entendemos por “mundo da criança”, o qual, muitas vezes, construímos por meio de nossas perspectivas.

Literatura infantil é fundamental para construção do saber

Por outro lado, se tomarmos esse livro somente por seu adjetivo infantil, ou por suas ilustrações,nunca daríamos a oportunidade a nós mesmos dessa leitura. O livro e sua arte não necessariamente precisam estar relacionados a uma categoria. A arte literária atinge a todos independente de seu público leitor. O que configura um livro em “infantil” é a sua matéria, isto é, sua temática, o tipo de ilustração e as escolhas de palavras, porém isso não deve se sobrepor à arte literária, e muito menos aprisionar o seu leitor a apenas uma categoria de leitura.

O infantil de um livro deve ser o adereço e não sua essência. Não estaríamos nós, adultos, perdendo a chance de lermos bons livros “infantis”? Um bom livro é aquele que nos leva a mergulhar em sua arte e a refletir sobre aspectos singelos da vida humana. Cada livro mexe conosco de maneiras diversas; assim acontece com as crianças também. É essa potencialidade que as histórias, sobre tudo da literatura infantil, devem conter, independentemente de ser classificada como adulta ou infantil


Referências:

  • CALI, Davide; BLOCH, Serge. Fico à espera. trad. Marcos Siscar. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

Jolie Antunes da Cunha é professora formada em Letras, Português/Inglês, pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente pesquisa poesia na área de Literatura Infantil e Juvenil em documentos e materiais curriculares junto ao programa de pós-graduação da USP. Atuou durante anos com o ensino infantil e fundamental. Trabalhou em escolas com projetos literários e com o ensino de línguas. 



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