O que te impede de ler um livro? - Busca Prof Artigos

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o que te impede de ler um livro

Como criar um universo de leitura para você não desistir no meio do caminho de ler um livro.

No artigo do mês passado falamos sobre o projeto de leitura e como construir um ambiente engajador entre livros e leitores. Neste mês, falaremos como ler um livro, ou melhor, ler vários livros através de uma trilha . Como já sabemos, os livros podem ser fontes de criação de um mundo imaginário e afetivo para os seus leitores. Contudo, como fazer com que essa imaginação, proporcionada pelos livros, crie vínculos afetivos com seus leitores? 

Algumas pessoas, as que não possuem o hábito de leitura (veja aqui como criar um plano de leitura), procuraram-me para contar sobre o contato delas com os livros. Relataram que, geralmente, esse contato não se dá de maneira fluída, isto é, elas sentem muita dificuldade em começar uma leitura, principalmente quando veem a quantidade de páginas. Muitas vezes, há falta de concentração e logo depois surge o desinteresse pela leitura.

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Disseram que já tentaram se engajar numa leitura, mas ao verem a quantidade de páginas se perguntam se são capazes de ler “tudo aquilo” ou se terão paciência. Assim, sentindo-se frustradas, encostam o livro em um canto sem ao menos terminarem a leitura.

De quais livros estamos falando?

Antes de discutirmos como criar um universo que envolve a leitura, vamos observar alguns fatores relevantes que, por vezes, impedem de ler um livro. Aqui elencarei apenas um que tenho observado durante minha trajetória de educadora em Literatura. É importante salientar que estamos falando de leitura literária, isto é, livros de literatura que trabalham com a linguagem artística e esteticamente e que promovem sentidos subjetivos aos seus leitores.

Dessa maneira, a leitura de livros à qual me refiro não é aquela de bula de remédio dos livros de autoajuda com títulos chamativos como “cinco dicas para construir seu milhão em um ano”. Embora títulos desse tipo sempre chamaram a atenção, não é a essa categoria que nos referimos aqui. A literatura, mais que a autoajuda, é capaz de proporcionar uma reflexão interior de criticidade em relação ao mundo ao redor (Saiba mais em “Poesia é melhor do que autoajuda”). Entretanto, como trilhar essa ponte e criar esse “mundo leitor”?

Se construindo como leitor

Muitos dos fatores que impedem o contato do sujeito com a leitura, em muitos dos casos, e eu diria o principal, seria o modo do contato com os livros na formação pessoal, especialmente na formação formal, isto é, na formação escolar. A maior parte dos leitores que conheço não se tornaram leitores na escola.

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Alguns exemplos

Em alguns relatos, teóricos, escritores e escritoras famosos dizem ter se tornados leitores através de pessoas que já tinham o contato com a leitura. Como é o caso, por exemplo, do teórico búlgaro Tzvetan Todorov, no qual relata que sua vontade pelos livros surgiu por meio dos pais bibliotecários e pelo ambiente repleto de livros que era a sua casa.

Outro caso, é o do nosso poeta Drummond, que lia Robson Crusoé em sua infância e não sabia qual mundo era mais bonito, se o da fazenda ou se o seu próprio nas entrelinhas do romance de Crusoé. O fato é que a leitura entrou em suas vidas pela via afetiva, na qual havia em primeiro lugar o amor pelos e a valorização dos livros.

As pessoas que possuíam o “vírus” da literatura passaram para eles, ou por meio simbólico – ao observarem sua paixão pela leitura e verem suas posturas com os livros – ou de forma tangível, isto é, pelos próprios livros, em que a leitura era descomprometida. É diferente do que ocorre na escola, em que as obras literárias são analisadas por seus componentes estruturais, fase e época das características do movimento literário e autor, aspectos que os alunos precisam saber para passarem no vestibular. Assim, os alunos leem para saber do que os livros falam e não o que eles comunicam aos seus leitores.



O ambiente para ler um livro conta

Igualmente, o viver em uma casa rodeada por livros é um privilégio, em especial em um país desigual como o nosso, em que a maioria dos lares conta com pessoas que mal completaram o ensino médio, pois suas preocupações, infelizmente, foram e são direcionadas para como trazer alimento ao lar. E, pensando sob o aspecto econômico, sabemos que o livro não é um artigo acessível para todos, pois a média de preço varia entre 20 até 80 reais, em alguns casos.

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O modo de contato com a literatura e o livro, portanto, seria um dos grandes fatores que impediria o acesso a ele, e geraria dificuldades e frustrações com a leitura. Observando por esse lado, voltamos à pergunta anterior: como trilhar a ponte da leitura e criar meu próprio mundo leitor? Vamos a algumas reflexões.

Primeiro – Observe o que está te impedindo:

Sua maior dificuldade está na incompreensão das palavras? No “tamanho” do livro? Ou no próprio desinteresse? Se você não nasceu em um lar rodeado por livros ou com pessoas que te impulsionassem o gosto pela leitura, não fique frustrado(a), pois nunca é tarde para se ter contato com a literatura e criar o seu próprio mundo leitor.

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O gosto pela leitura é algo que se vai criando e se modificando durante o tempo. Não é algo fixo, tampouco momentâneo. É uma trilha que se constrói durante toda a vida. Por isso, é importante refletir sobre sua maior dificuldade nesse primeiro momento. Ela pode provir de diversos fatores. Como conseguir lidar com elas? Observar seus impedimentos pode ser o primeiro passo. 

Segundo – Pense em suas possibilidades e vontades:

Nesse ponto, é importante refletir sobre um hábito, em suas possibilidades iniciais, e quais as suas vontades de leituras, ou seja, quais gêneros literários mais te agradam. Não se lê Proust ou Dostoievski do dia para noite. O gosto literário é algo que se cria e se constrói com o tempo. Quanto mais repertório, maior a chance de conhecer autores e estilos, maior o leque de leituras e mais chances de conhecer qual o gênero e estilo mais te atraem – se ficção ou romance, prosa ou poesia, conto ou crônica, romance histórico ou contemporâneo etc. Lembre-se que uma leitura chama a outra.

Encontrando o significado

É importante nesse sentido que você se permita escolher histórias e versos que lhe tragam mais significados e que mais te cativem. Por isso, também, mais do que escolher a sua história, autor, obra, tema e estilo, é importante pensar na construção de um momento e de um espaço para o hábito da leitura. Onde e quando ler um livro? Em casa, no trabalho, em uma biblioteca pública, no parque, em um café, no trem, no ônibus? De manhã, à tarde, à noite ou aos finais de semana? Sentado em um local tranquilo? São tantas as possibilidades possíveis para a leitura que você pode escolher e aos poucos saber qual a melhor para você. Ademais, existem clubes de leituras em algumas bibliotecas públicas pela cidade dos quais você pode fazer parte.

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Antes de dizer que “não quero ler um livro”, permita-se primeiro descobrir o que mais te atrai. Quanto mais chances você dá ao universo literário, maiores as ocasiões de encontrar uma história que te cative e que seja capaz de te transformar. Pois, qual aquele leitor que não tem um livro que mudou sua vida? É essa potencialidade que a literatura é capaz de ter conosco. 

Terceiro – Supere o desinteresse:

Gosto da definição que a escritora argentina María Teresa Andruetto (2012, pp. 24-25) dá sobre a literatura. Ela diz que a literatura é uma metáfora da vida que reúne quem fala e quem escuta num único espaço comum. Ela ainda discute qual o sentido e para quê escrever, contar e escolher ler um livro bom em meio a tempos tão conflituosos. Chega à conclusão de que “a literatura continua reunindo quem fala e quem escuta”.

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Assim, escrever para “que o escrito seja abrigo, espera, escuta do outro”; escrever e ler “para participar de um mistério, para fazer que nasça uma história que pelo menos por um momento nos cure de palavra, recolha nossos pedaços, junte nossas partes dispersas, transpasse nossas zonas inóspitas, para nos dizer que no escuro também está a luz, para mostrarmos que tudo no mundo, até o mais miserável tem o seu brilho”.

A leitura é terapêutica

Quem nunca, ao ter dado uma chance a um livro, não se identificou com algum personagem ou chegou até o final de uma história com alguma aprendizagem de vida? A literatura é capaz de recolher nossos pedaços e nos juntar com suas palavras. Por mais que haja nos primeiros momentos dificuldades que te impossibilitem dar chance a uma história, é importante encontrar caminhos de superação e de descobertas com as leituras. Para isso, é preciso se permitir.

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Deixando para trás o preconceito

Permitir um espaço, criar um hábito, buscar diversas leituras e conversar com pessoas que possam te ajudar no caminho com a leitura são formas de criar um abrigo e um lugar comum entre a história e quem a recebe. Em outras palavras, o gosto e o interesse pela literatura, pelos livros e por suas histórias não surgem ao acaso. Como havia dito, ninguém lê Em busca do tempo perdido em uma sentada. O modo como estabelecemos o vínculo entre livros e leitores (nós mesmos) é caminho por onde trilhamos nossa formação literária.

Portanto, observar e superar os impedimentos com a leitura é o primeiro passo dessa formação. E, o mais importante, é preciso também que no meio desse caminho encontremos pessoas e obras literárias que vão nos ajudar a manter esse brilho do olhar com a leitura. Ler um livro até o fim e se lançar a uma nova leitura é uma maneira de superar frustrações e desinteresses e de criar um universo literário para você não desistir no meio do caminho.


Bibliografia

ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.

ANDRUETTO, María Teresa. Passageiro em trânsito. In. Por uma literatura sem adjetivos (trad.) Carmem Cacciacarro. São Paulo: Editora Pulo do Gato, 2012, pp. 14-25.

PROUST, Marcel. Em busca do tempo perdido. Vol. 1: O caminho de Swann. Trad. Mário Quintana. São Paulo: Globo, 2007.


Jolie plano de leitura

Jolie Antunes da Cunha é professora formada em Letras, Português/Inglês, pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente pesquisa poesia na área de Literatura Infantil e Juvenil em documentos e materiais curriculares junto ao programa de pós-graduação da USP. Atuou durante anos com o ensino infantil e fundamental. Trabalhou em escolas com projetos literários e com o ensino de línguas. 

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